sábado, 23 de março de 2013

No Chipre se fala grego


O Chipre é uma pequena ilha no mar mediterrâneo, possui pouco mais de 1 milhão de habitantes um PIB de US$ 24 bilhões de dólares, conta com bons indicadores sociais; IDH de 0,84 (considerado elevado), Índice de GINI de 0,29 (quanto menor melhor) e uma renda per capita de US$ 28 mil dólares. Um país pequeno em termos relativos para a economia mundial, mas importante em seu provável efeito simbólico e vamos entender o porquê disso tudo...

Na madrugada de sábado de 15/03/2013, foi organizado um projeto de lei no Chipre para prover os países credores e sendo exigida uma chamada de capital da ordem de € 10 a 17 bilhões de euros, como havia sido especulado.

Cria-se um imposto único de 9,9% sobre todos os depósitos acima do limite de € 100.000 euros antes dos bancos reabrirem depois de um feriado bancário na segunda-feira dia 18/02/2013. Essa ideia tinha estado no ar por um tempo, até porque muitos desses depósitos são de fora Chipre, da Rússia, em particular. A política de salvar russos ricos com dinheiro emprestado pelos alemães não agrada o parlamento europeu, uma atitude tipicamente germânica.

Imagine você um cidadão Cipriota (não confunda com idiota), acorda, vai ao banco consultar seu saldo e encontrar todas as agências bancárias fechadas e percebe que não pode consultar seus saldos nem muito menos sacar dinheiro. Assim a oferta de capital dos bancos para substituir o valor de suas economias se destina a ser um bálsamo (evaporará e tem terrível odor). A explicação mais plausível para essa medida é a de que o governo do Chipre tenha preferido para espalhar a dor, em vez de acabar com os depósitos off-shore e prejudicar suas perspectivas de longo prazo como um centro financeiro para dinheiro russo e outros.

Seja qual for à razão, é um erro por três razões. O primeiro erro é despertar risco de contágio em outras partes da zona do euro e gerar uma desconfiança sem proporções ainda calcula de uma corrida bancária. Os líderes europeus justificam tal medida como a única a ser tomada dada as atuais situações de temperatura e pressão no Chipre. Mas se você fosse um depositante em um país periférico que precisasse de um resgate da União Européia (EU) o que faria?  

O segundo erro é a desigualdade. Como separar ou a tentativa de separar dinheiro russo dos recursos da pátria? Afinal o capital financeiro tem muitas e múltiplas ligações e como bem sabem os meus amigos economistas “o capital financeiro não tem pátria”, o que não faz dele ruim ou bom, faz dele um componente fluido e volátil que deve ser cuidado de forma igual, pois a mesma capacidade de movimento que tem no Chipre tem nas Ilhas Cayman ou mesmo em Singapura. O capital deve sim correr riscos, esta em sua essência, mas não ser regulado de tal maneira a perturbar o sistema com tamanha brutalidade. 

O erro final é estratégico. O negócio cipriota não tem coerência no contexto maior. A crise do euro está em suspenso por alguns meses, em grande parte graças à prontidão do BCE que interviu para ajudar os países em dificuldades. O preço econômico para o BCE é insistir em programas de resgate com perfis customizados para cada país, entretanto o preço político parece ter um custo enorme, pois mais uma vez mostra o “racha” dentro da “união” econômica da Europa.

Assim o resgate parece mover a Europa mais longe das reformas institucionais que são necessárias para resolver a crise de uma vez por todas. Ao invés de usar o Mecanismo de Estabilidade Européia para re-capitalizar os bancos e, assim, enfraquecer a relação entre os bancos e os seus governos, a zona euro continua a equacionar problemas bancários com divida soberana.

Em resumo o que a Europa precisa é de um bom PROER (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional) feito no Brasil pelo governo FHC e que saneou os bancos nacionais e deu estabilidade o sistema nacional, impedindo o uso de recursos púbicos para sanear o sistema financeiro, ou poderemos amargar mais anos de recessão na zona do euro, com graves problemas de instabilidade sistêmica que será sentida em todo o mundo e apenas para completar com um toque de humor sarcástico; No Chipre se fala grego!


Sobre a importância da saúde do sistema financeiro para qualquer país, o professor Mário Henrique Simonsen lembra um momento amargo da história americana: “não podemos esquecer o exemplo da recessão de 1930 nos Estados Unidos, que acabou virando depressão econômica justamente porque o BC norte-americano não evitou uma crise bancária”. 



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